Ensaios de Saias

um teclado nas mãos, uma saia nos quadris, e muitas ideias na cabeça

Arquivo de setembro, 2009

Bocassujismo

– Pára, Celso!
– É “para, Celso”
– Claro que não, sem o acento, vira uma dedicatória safada, com esta vírgula intrusa!
– Nãnãnãnã! Isso é coisa do passado!
– Ah, claro! Dos tempos anteriores à internet e seus textos codificados!
– Rá! Quem me dera fosse só isso! Falo do passado da língua portuguesa, ou Língua Brasileira, como preferir… Você não soube da reforma ortográfica?
– Ouvi falar, mas ainda não li nada a respeito. Quem diria, hein? Eu, uma pessoa tão eloqüente…
– Eloquente.
– O que foi?
– É sem trema.
– Caramba, será que baniram o “H” também, deixando o nosso alfabeto só com 22 letras?
– Agora temos 26. K, W e Y voltaram com força.
– Bem… Pelo menos com isto eu concordo… Tantos estrangeirismos! E o que mais? O suspense já me péla de medo.
– Pela.
– Ah, não!
– Ah, sim! Pela, polo, pelo… É a mesma regrinha do “para” – nada mais de acentos diferenciais.
–  Que abuso! Agora entendo a minha tia! Até hoje ela escreve “êle” e “ôvo.”
– Xi… Daqui pra frente, ela será praticamente analfabeta!
– Putz… É pra acabar com a auto-estima do sujeito!
– Sim, só que sem hífen. Autoestima.
– E auto-retrato? Juntar aniquilaria a fonética!
– Dobre o R ou o S da palavra: autorretrato, puxassaco(???)
– Pô! Mas “superherói” vai ficar ridículo!
– E por isso será mantido o hífen em palavras iniciadas com H.
– Cacete!
– É!

– Hum… Você não me corrigiu…
– Ah, bem… os palavrões eles não mudaram..
– Hum… Claro, claro… Usado por tantas pessoas… Ou mantinham, ou a comunicação voltaria a se dar só por grunhidos.
– Hahaha! Fato!
– Ótimo, se ainda há algo intocado, então embarque comigo na Revolução Bocassuja, ou Bocassujismo, para os íntimos.
– E o que seria isso?
– Oras! Contrariando Renato Russo, depois de 20 anos na escola, é bem difícil aprender! Vamos esquecer estas regras loucas! Antes bocassuja do que inculto!
– Eita! Seria isso uma espécie de Anarquia Ortográfica?
– Se assim enxergas, é o que é.
– E depois dizem que os jovens de hoje não lutam por causa alguma…

 

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escrita no meu famoso caderninho, em 21/10/2008 – assim que terminei de ler as regras do acordo.

[Leia mais sobre]
:: acentuação
:: alfabeto 
:: hífen 
:: trema

Helena de Troia – ops, de Angola – e outras histórias

Alguém já viu o comercial na Globo? Depois da Helena Médica, da Helena Decoradora, da Helena Blasé, da Helena Pegadora de Gianechini e das 25 Helenas Regina Duarte, as indústrias Maneco enfim lançarão a Helena Negra, ou Helena de Angola, como preferir!

Uau! Que grande mudança nas tramas, não?
Não.
Acostumada ao estilo Manequiano de escrever novelas, acredito que a grande novidade desta protagonista negra (a 3ª do Brasil, com a mesma atriz, aliás) esteja no fato de não ser uma personagem típica: nem escrava, nem uma quituteira do Maranhão que sofre todo o tipo de preconceito no Rio por ser uma quituteira negra do Maranhão.

Pra começar, ela vai morar no Leblon, num apartamento incrivelmente maior que o da sua melhor amiga, que mora ao lado e tem problemas com o marido; vai namorar o Zé Mayer, se consolar com o Zequinha de Presenmça de Anita, ou com algum outro galã disponível, e quando ficar doente ou se envolver num acidente de carro, vai parar no (aparentemente) único hospital existente no Leblon, para ser tratada pelo imortal doutor Moretti. Sim, porque não importa em que ano se passe a trama de Manoel Carlos, não importa se a Helena atual é diretora de escola, curte um saxofonista ou dono de livraria – doutor Moretti sempre ressurge das cinzas, como uma fênix. Incrível como não ganhou um núcleo só dele até hoje.

Hummm… é isso aí… acho que vou mandar esta ideia pra Rede Plimplim… Estreia em 2012, pra dar tempo de os atores escalados se desvencilharem de seus compromissos e descansarem um pouco antes do início das gravações, uma trama com Fagundes, Tony Ramos, Zé Mayer, Cristiane Torloni, Deborah Secco mais uma vez como Iris, doutor Moretti, as 71 Helenas de Troia, a Helena de Angola e a Helena Ranaldi.
Doutor Moretti desta vez será o protagonista, e interligará todas as Helenas, seja em relações profisionais, familiares, amorosas ou espaciais. Sendo Moretti o centro da trama, as Helenas poderão se odiar, disputar o seu amor, trabalhar na padaria, dar uma de vilãs ou ainda se tornarem melhores amigas com apartamentos menores e problemas com o marido!

– Helena, bom te ver! Quem te indicou esta loja?
– Heleninha!
– Ah, que maravilha… Heleninha tem um ótimo gosto… mas também, com Helena como mãe…
– O problema é aquela namorada que ela arrumou agora!
– Qual? Helena?
– Não, Helenão! Helena era ótima!
– ô! Eu que o diga!
– rsrs… Ai, Moretti, vem ver essa cortina, que coisa mais linda! Helena vai adorar, não?
*corta para cena da praia com musiquinha Bossa *

Uma delícia, não? A grande dúvida desta trama seria: com tantas Helenas, pra quem torcer no final?
Pra Helena Ranaldi ficar com o Zé Mayer desta vez, é claro!

(((diferencia aí, ô Manoel Carlos!)))